Autor Desconhecido
(EpĂlogo: O Ăltimo Abraço da Luz)
Parte I â O Corpo e a Alma Separados
Na cidade de mil luzes, o Corpo brilhava por fora e apodrecia por dentro.
Andava entre vitrines e relĂąmpagos de cĂąmeras, vestido de ouro e vazio.
As ruas o chamavam pelo nome, os prĂ©dios refletiam sua imagem â mas nenhuma dessas vozes o amava.
EntĂŁo veio a noite do massacre.
NĂŁo de sangue, mas de ausĂȘncias.
Um a um, todos os nomes que o chamavam de âmeuâ desapareceram.
O pai virou lembrança.
As vozes da casa silenciaram.
E, por Ășltimo, a mais antiga â a que o chamava de criança â tambĂ©m se calou.
O Corpo ficou sĂł.
NĂŁo havia mais eco nem destino.
Na manhĂŁ seguinte, queimou as velas que restavam, fechou a porta e partiu.
Levou apenas uma mala e o som de passos que nĂŁo sabia se eram dele.

Longe, numa ilha que parecia suspensa entre o tempo e o vento, vivia a Alma.
Era frĂĄgil e teimosa.
Trabalhava até a exaustão, dormia entre madeiras e sonhos.
Ă noite, falava com o mar:
âEm algum lugar, hĂĄ um Corpo vazio.
Se eu o encontrar, talvez a vida volte a respirar.â

Um avião riscou o céu; um barco cortou as ondas.
O Corpo fugia da cidade morta.
A Alma fugia da fome e da solidĂŁo.
O destino cruzou suas rotas como linhas de feitiço.
Ambos chegaram Ă mesma cidade, sem saber que o universo os estava juntando.

Parte II â O Encontro e o VĂnculo
O Corpo caminhava pelas ruas estreitas, cheio de cemitério por dentro.
Carregava todas as vozes perdidas.
Até que alguém bateu à porta: era a Alma, com uma caixa nas mãos.
Quando a porta se abriu, o tempo parou.
A luz que vinha da Alma atravessou o ar e preencheu cada canto escuro do Corpo.
Sem dizer palavra, eles se abraçaram â e o que era dividido tornou-se inteiro.

Na primeira noite, o Corpo quis agradecer.
Preparou uma sopa simples, acendeu uma vela e chamou a Alma para a mesa.
A Alma observou o vapor da tigela e chorou.
â âFaz muito tempo que ninguĂ©m cozinha pra mimâ, disse.
O Corpo respondeu: âEntĂŁo esta Ă© a tua casa agora.â
Naquele instante, o laço virou destino.
 
Eles riram, dançaram, pintaram paredes.
Cada gesto era cura; cada riso, uma nova lĂąmpada dentro deles.
ConstruĂram uma casa no alto da colina.
E o bairro a chamava de A Casa da Luz.

Parte III â A Casa da Luz e as Sombras
Mas a luz chama a noite.
De longe, as sombras começaram a acordar.
Observavam pela janela, cochichando:
âLĂĄ estĂŁo eles, corpo e alma, luz demais para caber no mundo.â
Um dia, as sombras entraram.
Primeiro, em pequenos gestos: um esquecimento, uma dĂșvida, uma palavra maldita.
Depois, em gritos.
E entĂŁo conseguiram: arrancaram a Alma de dentro do Corpo.
 
Parte IV â O Labirinto e o Abismo
A Alma correu tentando voltar.
Mas o caminho virou labirinto: paredes vivas, vozes falsas, portas que se repetiam.
Cada curva levava Ă mesma curva.
A Alma gritava o nome do Corpo, e o som voltava torcido.

O Corpo, agora vazio, tentou ouvir.
Sonhou com ela, acendeu velas, escreveu palavras em janelas embaçadas.
Mas toda vez que o som de um chegava ao outro, uma sombra cortava o fio invisĂvel.
AtĂ© que o Corpo a viu de novo â no reflexo de uma vitrine.
LĂĄ estava a Alma, cercada pelas mesmas sombras.
O Corpo caiu de joelhos e entrou numa cabine telefĂŽnica antiga.
Tentou chamĂĄ-la, mas sĂł ouviu o som das prĂłprias lĂĄgrimas.
A ågua subiu até o topo, e ele quase se afogou em si mesmo.

Quando a ågua cobriu sua cabeça, o Corpo ouviu uma voz:
âEla ainda Ă© tua alma. Espera o tempo girar.â
E a ĂĄgua brilhou, como se o choro abrisse caminho para o amanhecer.
 
EpĂlogo â O Ăltimo Abraço da Luz
Dizem que, em certas noites, uma luz reaparece no alto da colina.
Alguns juram ver dois vultos dançando dentro dela â um corpo e uma alma.
Ninguém sabe se é lembrança, milagre ou promessa.
Talvez seja apenas o tempo preparando o Ăltimo Abraço da Luz.
Ou talvez⊠apenas o começo da segunda parte.














